Nas urnas de Itapetinga: Antônio Brito domina, Roberta Roma surpreende e Raissa top 4 sem pisar na cidade

Enquanto os padrinhos políticos tradicionais perdem espaço, uma médica bolsonarista de Porto Seguro quase entra no top 3 em Itapetinga; Jayminho fica atrás do esperado e Neto Carletto não decola, mas leva.

Nas urnas de Itapetinga: Antônio Brito domina, Roberta Roma surpreende e Raissa top 4 sem pisar na cidade
O candidatos a deputado federal que alçaram o top 4 das urnas de Itapetinga.

A apuração das urnas em Itapetinga, concluída às 20h53 de 4 de outubro de 2026, desenhou um cenário político bem diferente do que se projetava nos bastidores da cidade. Com 100% das 159 seções totalizadas, 38.690 comparecimentos de 80,08% de um eleitorado de 48.314 aptos, o município viu a votação se pulverizar de forma quase inédita.

O resultado escancara uma realidade: a força dos padrinhos políticos tradicionais já não se traduz automaticamente em votos, e candidatos com pouca ou nenhuma inserção local conseguiram penetrar no eleitorado.

Antônio Brito, o mais votado
O deputado federal Antônio Brito (PSD) foi o mais votado em Itapetinga, com 6.384 votos, 18,87% dos válidos. Apoiado pelo ex-prefeito Rodrigo Hagge (PSDB) e seu sólido grupo de apoiadores, Brito consolidou a força da máquina política local e ficou quase colado com segundo colocado.Se o resultado era “top 1” das urnas de Itapetinga, foi sucesso absoluto, já que na Bahia, no geral, o deputado do PSD, faturou o segundo lugar no estado com 205.815 mil votos.

Urnas de Itapetinga: Lula vence, mas resultado frustra petistas

Logo atrás, a deputada federal Roberta Roma (PL) surpreendeu e alcançou 5.347 votos (15,81%). Também apoiada por Rodrigo Hagge, Roberta capitalizou o voto conservador e mostrou que o palanque do ex-prefeito Rodrigo segue sendo decisivo em Itapetinga mesmo com o atual prefeito Eduardo Hagge sendo de outro grupo. Roma foi eleita deputada federal com 156.108 mil votos na Bahia.

Jayminho fica em terceiro e frustra o Tiozão
O candidato Jayminho Vieira Lima (MDB), apoiado pelo atual prefeito Eduardo Hagge, era apontado como o nome mais forte da situação municipal. Acabou em terceiro lugar, com 3.736 votos (11,04%). E o resultado estadual acabou não se elegendo, ficando na suplência com 115.292 mil votos, com MDB fazendo apenas um deputado federal na Bahia.

O desempenho, embora expressivo, ficou abaixo do esperado para quem carregava o apoio da máquina municipal. O resultado sugere que o eleitorado de Itapetinga não transferiu automaticamente a força do prefeito para o candidato e que a pulverização de votos entre nomes desconhecidos acabou prejudicando Jayminho, na visão dos aliados de Eduardo Hagge.

A surpresa: Raissa Soares, quase entrou no top 3 sem visitar a cidade
Se há um nome que resume o caráter atípico desta eleição em Itapetinga, é o de Doutora Raissa Soares (PL). Médica de Porto Seguro, bolsonarista declarada, defensora do uso de cloroquina durante a pandemia, com pouco ou nenhum registro de visita à cidade, ela obteve 1.922 votos, quase 2 mil e ficou em quarto lugar, à frente de nomes apoiados por liderança locais, como Daniel Alencar e Lidice da Mata. Raissa conseguiu se elege deputado federal com 162.370 mil votos.

Urnas de Itapetinga: ACM Neto vence Jerônimo por 426 votos de frente, em derrota para o prefeito

Daniel Alencar (PSD), apoiado pela ex-primeira-dama Cida Moura, era um dos nomes mais aguardados. Ficou em sexto lugar, com 1.156 votos bem abaixo do potencial que se atribuía à sua candidatura com apoio de uma liderança que obteve 17 mil votos na eleição municipal de 2024. Votação baixa em Itapetinga, sucesso na eleição, ao eleger com 192.492 mil votos. Daniel é filho do senador Otto Alencar (PSD).

Lucas Reis (PT) fez 1.105 votos (7º), e Lidice da Mata (PSB) ficou com 1.031 votos (8º), apoiada por partidários e ex-vereadores. Nenhum dos três conseguiu romper a barreira dos 1,2 mil votos, num cenário em que o voto de esquerda e de centro se fragmentou. Após décadas no Congresso Nacional, Lídice se despede do mandato, com votação estadual baixa, ficando na suplência com 89.705 mil votos.

Neto Carletto: tinha vereador
Neto Carletto (Avante) é um caso à parte. Em 2022, ele já havia obtido 900 votos em Itapetinga, com apoio declarado do vereador Tiquinho Nogueira, hoje presidente eleito da Câmara de Itapetinga, em 1 de outubro, e de seu grupo político. Em 2026, fez 791 votos, ou seja, não cresceu: regrediu levemente. Se teve votação baixa em Itapetinga, ele foi eleito com votação foi expressiva, com 197.240 votos.

O dado é revelador. Mesmo com estrutura vereador, articulação partidária e um histórico recente, Carletto não conseguiu reativar a memória do eleitorado. Ficou numa faixa intermediária: acima dos nomes completamente esquecidos, mas abaixo de candidatos com estrutura semelhante ou menor.

Os nomes do passado que o eleitorado esqueceu
O contraste com o passado é brutal. Arthur Maia (UNIÃO) foi o 2º mais votado em Itapetinga em 2022, com 2.690 votos. Em 2026, caiu para 374 votos uma queda de 86%. Maia é outro que dá adeus a Câmara dos deputados, após décadas no Parlamento, mesmo obtendo 103.336 votos ao ficar como suplente.

Paulo Magalhães (PSD) fez 421 votos. Leur Lomanto Junior (UNIÃO) ficou com 307. Felix Mendonça (PDT) somou 326. Todos eles, que já foram nomes de peso no radar do eleitor itapetinguense, tiveram votações residuais. Paulo Magalhães não conseguiu se reeleger, os demais: Leur e Felix, garantiram as vagas de deputado federal. 

Urnas de Itapetinga: Rodrigo Hagge leva senadores da oposição a vitória, em nova derrota para Eduardo Hagge

A leitura é direta: o eleitorado de Itapetinga não reciclou automaticamente os nomes do passado. A política local vive um momento de renovação forçada, em que a memória eleitoral não se sustenta sozinha.

O que explica a pulverização?

Alguns fatores ajudam a entender o cenário:

Fragmentação partidária: 299 candidatos aparecem na lista de votação, a maioria com votação simbólica ou zero. Isso dilui o voto e dificulta a concentração em nomes tradicionais.

Palanques duplos em Itapetinga: Rodrigo Hagge (PSD/PL) e Eduardo Hagge (MDB) puxaram para lados diferentes, o que confundiu o eleitor e dividiu a base.

Voto ideológico sobrepõe voto de estrutura: Raissa Soares é a prova de que o eleitor pode escolher por tema, não por padrinho.

Desgaste dos nomes do passado: Arthur Maia, Paulo Magalhães, Leur Lomanto e Felix Mendonça não conseguiram se reconectar com o eleitorado atual.

Os 10 mais votados em Itapetinga (2026): 

1.    ANTONIO BRITO (PSD)    6.384 votos
2.    ROBERTA ROMA (PL)     5.347 votos
3.    JAYMINHO (MDB)            3.736 votos
4.    DRA.RAISSA (PL)              1.922 votos
5.    OLIVIA (PCDOB)               1.185 votos
6.    DANIEL ALENCAR (PSD) 1.156 votos
7.    LUCAS REIS (PT)                1.105 votos
8.    LIDICE DA MATA (PSB)   1.031 votos
9.    NETO CARLETTO (AVANTE) 791 votos
10.   CAPITÃO ALDEN (PL)         687 votos

Conclusão: Itapetinga votou com o bolso, mas também com a ideologia
A eleição de 2026 em Itapetinga mostrou que estrutura política ainda conta, mas não basta. Antônio Brito e Roberta Roma venceram porque uniram máquina e discurso. Jayminho tinha a máquina, mas não o discurso que o eleitor queria ouvir. Daniel Alencar, Lucas Reis e Lidice tinham nomes conhecidos, mas não conseguiram se diferenciar.

E Raissa Soares, a médica de Porto Seguro que quase ninguém viu na cidade, provou que em Itapetinga o voto ideológico fala mais alto do que a presença física do candidato. Uma lição para 2030, e um alerta para quem ainda acha que política local se resolve só com palanque.

Fonte: TSE Resultado