Por que as pesquisas na Bahia não revelam tudo? A guerra dos números entre ACM Neto e Jerônimo

“Tracking, método e localidade: o que está por trás da disparidade de pesquisas na Bahia a governador”

Por que as pesquisas na Bahia não revelam tudo? A guerra dos números entre ACM Neto e Jerônimo
Com aproximação das eleição os candidatos a governador da Bahia evitam o já ganhou.  

Se você acompanha a corrida pelo governo da Bahia, provavelmente já se deparou com uma confusão de números. Uma pesquisa diz que ACM Neto (União Brasil) está oito pontos à frente. Outra, divulgada dois dias depois, mostra empate técnico. E uma terceira, de tracking interno, afirma que a vantagem é ainda maior. Afinal, em quem acreditar?

A resposta não é simples. E envolve entender três coisas: quem fez a pesquisa, como foi feita e o que as campanhas dizem nos bastidores.

Pesquisas e seus empates técnicos
Vamos aos números oficiais, aqueles registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nas últimas semanas de setembro, três institutos divulgaram levantamentos sobre a disputa baiana. E, curiosamente, todos apontam empate técnico, mas cada um com uma história diferente.

A Quaest, contratada pela TV Bahia, ouviu 900 pessoas entre 20 e 23 de setembro. Resultado: ACM Neto com 42% e Jerônimo Rodrigues com 40%, dentro da margem de erro de três pontos. É um empate técnico clássico.

A Paraná Pesquisas, por sua vez, entrevistou 1.400 eleitores presencialmente entre 21 e 23 de setembro. O resultado: ACM Neto com 46,7% e Jerônimo com 42%. Numericamente, ACM está à frente. Mas com margem de erro de 2,7 pontos, os dois estão tecnicamente empatados.

Já a AtlasIntel/A TARDE, que ouviu 1.804 pessoas em 2 de setembro, mostrou ACM com 48,8% e Jerônimo com 47,5% uma diferença de apenas 1,3 ponto percentual.

Traduzindo: todas as pesquisas registradas mostram uma corrida apertada. Nenhuma indica vantagem confortável para nenhum dos lados.

A guerra dos trackings nos bastidores
Aqui é onde a história fica interessante. Enquanto as pesquisas oficiais apontam empate técnico, as campanhas travam uma verdadeira guerra de trackings aqueles levantamentos internos, repetidos periodicamente para acompanhar a evolução da disputa. Essas pesquisas não seguem as regras de registro do TSE e, muitas vezes, são mantidas em sigilo.

Segundo apurou o site Políticos do Sul da Bahia, os dois lados dizem estar na frente. Aliados de ACM Neto afirmam ter números internos que mostram vantagem. Integrantes da campanha de Jerônimo garantem que seus próprios levantamentos indicam o contrário.

Jerônimo arrasta comitivas de cidades em comício lotado em Itapetinga
O prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), que apoia ACM Neto, já declarou que as pesquisas internas do grupo apontam vantagem superior a oito pontos. “Ninguém contrata pesquisa de consumo interno para se enganar, para se iludir”, disparou o prefeito, em entrevista recente.

Do outro lado, a campanha petista não divulga números, mas mantém a confiança. Afinal, o PT venceu as últimas seis eleições para governador na Bahia e, em 2022, Jerônimo Rodrigues virou sobre ACM Neto na reta final mesmo com as pesquisas apontando vantagem do adversário.

O fantasma de 2022, o temor da surpresa
Esse é o ponto que tira o sono de ACM Neto. Em 2022, ele liderava as pesquisas até poucos dias antes da eleição. O cientista político Cláudio André de Souza, ouvido pelo jornal A TARDE, lembra bem o que aconteceu.

“A tendência ponderada das pesquisas de primeiro turno fechou em 44,6% para ACM Neto e 34,6% para Jerônimo. Na urna, o resultado real foi 40,8% e 49,45% para o petista”.

Em outras palavras: as pesquisas superestimaram ACM em quase 4 pontos e subestimaram Jerônimo em quase 15 pontos. ACM quase ficou de fora do segundo turno. Jerônimo venceu por 52,78% a 47,22% no segundo turno. O petista quase havia faturado no 1º turno.

Por que isso aconteceu? Segundo o cientista político, há um padrão que se repete: “o eleitorado do interior e das camadas de menor renda se movimenta de forma mais tardia do que a metodologia presencial das pesquisas consegue captar”. Ou seja, o eleitor mais pobre e do interior que tende a votar no PT decide o voto na última hora, muitas vezes depois que as pesquisas já fecharam.

Fator Lula? O que assusta ACM Neto
Não é segredo para ninguém: Lula é forte na Bahia. E a campanha de Jerônimo trabalha para nacionalizar a disputa, vinculando sua imagem à do presidente.

O ex-prefeito de Salvador, por outro lado, tenta evitar exatamente isso. Ele trabalha para não transformar a eleição baiana em um plebiscito sobre Lula ou sobre o bolsonarismo.

O problema para ACM é que o histórico joga contra. Nas últimas eleições, a votação de Lula na Bahia puxou votos para o governador e para o senador apoiado por petistas. Se esse movimento se repetir em 2026, Jerônimo tende a crescer na reta final.

E há um dado que reforça isso: a aprovação do governo Jerônimo está em 56%, segundo a Paraná Pesquisas. Mais da metade dos baianos acha que o governo é bom ou ótimo. E 52% acreditam que Jerônimo merece ser reeleito.

As “inconsistências” das pesquisas
Agora, vamos ao ponto que interessa: por que os números são tão diferentes entre institutos?

A resposta está na metodologia. Cada pesquisa usa uma abordagem diferente e isso produz resultados diferentes.

Um levantamento do Informe Baiano apontou inconsistências na distribuição de entrevistas da Quaest. Municípios com tamanhos de eleitorado completamente diferentes receberam o mesmo número de entrevistas. Teixeira de Freitas, com cerca de 100 mil eleitores, teve 12 entrevistas. Érico Cardoso, com aproximadamente 9 mil eleitores, também teve 12.

Isso não significa que a pesquisa esteja errada. Mas significa que os pesos atribuídos a cada região podem não corresponder exatamente ao peso real do eleitorado. Mesmo a pesquisa sendo presencial.

A Paraná Pesquisas, por sua vez, usa entrevistas presenciais vai na casa das pessoas. Isso tende a captar melhor o eleitor de baixa renda e do interior, que muitas vezes não é alcançado por pesquisas telefônicas ou digitais.

A AtlasIntel usa recrutamento digital o que pode sub-representar justamente esse eleitorado que vota no PT .

E a Veritá, que não aparece nas pesquisas registradas recentes mas foi mencionada nas análises anteriores, usa pesquisa telefônica por celular. Esse método tende a captar um eleitorado mais urbano, mais escolarizado e mais rico que é mais favorável a ACM Neto.

O que dizem os especialistas
O senador Angelo Coronel (Republicanos-BA) resumiu bem a confusão. Em entrevista recente, ele criticou a disparidade entre pesquisas: “Como é que pode você hoje ter um resultado de uma pesquisa com 10%, aí de noite sai outra e você sai de 10% para 5%, e chega uma outra você pula para 30%? O povo fica sem saber em qual instituto acreditar”.

Ele ainda foi mais longe: “Geralmente fica parecendo que quem contrata tem algum benefício”.

A sugestão dele? Que os institutos criem uma “central de números” após as eleições para padronizar metodologias e recuperar a credibilidade.

O que os números realmente dizem
Se você quer entender a eleição da Bahia, não olhe para uma única pesquisa. Olhe para o conjunto.

O que todas as pesquisas registradas concordam: a disputa está empatada tecnicamente. A diferença entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues está dentro da margem de erro de todos os institutos.

O que as pesquisas internas (trackings) dizem: cada campanha afirma estar na frente. Ninguém divulga números oficialmente.

O que o histórico diz: em 2022, as pesquisas subestimaram Jerônimo em quase 15 pontos. O PT tem uma máquina política forte na Bahia e venceu todas as eleições para governador desde 2006.

O que pode decidir: o eleitorado de baixa renda e do interior, que decide o voto na última hora e que as pesquisas presenciais captam melhor do que as telefônicas. Se esse eleitor se mover para Jerônimo como em 2022, a vantagem numérica de ACM nas pesquisas pode não se confirmar nas urnas.

ACM Neto sabe disso. Por isso, a palavra que mais se ouve nos bastidores da campanha dele é “apreensão”. Ele lidera nas pesquisas, mas liderava em 2022 também. E o resultado, ele conhece bem.