'Tudo bem’? A saúde de Itapetinga vive um conto de fadas no rádio e um pesadelo nas filas

Entre promessas de "avanços" e entrevistas combinadas, a gestão Eduardo Hagge tenta maquiar uma crise de pagamentos, exames com meses de espera e um hospital sob risco de fechar.

'Tudo bem’? A saúde de Itapetinga vive um conto de fadas no rádio e um pesadelo nas filas
Entrevista da secretária de Saúde de Itapetinga Myllena Orrico, em emissora de rádio local.

Quem ouviu as recentes entrevistas da Secretária de Saúde, Myllena Orrico, e da equipe do CDM nas rádios locais, teve a nítida sensação de que Itapetinga descobriu a cura para todos os males da gestão pública. No "Radar 660" e no "Podcast 92.3", o cenário pintado foi de uma rede eficiente, tecnológica e humanizada. Mas, para o cidadão que acorda cedo e bate à porta das unidades de saúde, o roteiro é outro: o gênero não é romance, é drama, e dos pesados.

A estratégia da gestão Eduardo Hagge (MDB) é clara: ocupar o microfone para "repaginar" problemas crônicos como se fossem conquistas inéditas. O que a secretária chama de "avanço consistente", o povo chama de obrigação atrasada. Pior: muito do que foi apresentado como "inovação" de 2025 já existia em gestões anteriores. O tom das entrevistas, em um jogo visivelmente combinado com apresentadores que evitaram as perguntas espinhosas, serviu apenas para tentar tirar a Secretaria de Saúde "das cordas", onde se encontra acuada pela pressão popular.

O que não foi dito no rádio é o que realmente tira o sono do itapetinguense. A saúde vive uma crise de inadimplência que beira o colapso. Há relatos graves de falta de pagamento a médicos, profissionais que hoje ameaçam abandonar o atendimento por falta de compromisso da Prefeitura.

Partos particulares a R$ 7 mil no HCR escancaram crise na maternidade do Hospital Virginia Hagge 

E o que dizer do Hospital Virgínia Hagge? A unidade, que carrega o nome da irmã do prefeito, está sob uma nuvem de incerteza jurídica. Fruto de uma desapropriação que mais parece um "imbróglio" mal conduzido, o hospital enfrenta uma batalha com os herdeiros do antigo Hospital Santa Maria. O risco de as portas se fecharem é real, mas sobre isso, o silêncio da gestão é absoluto.

Enquanto a coordenadora do CDM, Karolinne Augusto, celebra a "informatização" que acabou com as filas físicas, as filas virtuais se tornaram buracos negros. É inadmissível que um município do porte de Itapetinga marque exames laboratoriais simples para três meses de espera.

Se para um hemograma o prazo é de um trimestre, para casos de urgência como suspeitas de câncer e doenças graves, o tempo é o maior inimigo. Há relatos desesperadores de pacientes esperando exames críticos há mais de três semanas. Para quem tem pressa de viver, a "articulação institucional" celebrada pela secretária não serve de remédio.

A tentativa de passar uma imagem de que "está tudo maravilhoso" soa como um insulto à inteligência de quem depende do SUS. O Odontomóvel e as cirurgias eletivas mencionadas são importantes, sim, mas não apagam o incêndio de uma rede básica que patina na falta de insumos e na desorganização financeira.

A saúde de Itapetinga não precisa de balanços maquiados em programas de rádio amigos; precisa de contas pagas, respeito aos médicos e agilidade real na marcação. Menos propaganda, mais saúde. Porque, no final do dia, a população não consegue se curar com "sensibilidade administrativa", ela precisa de atendimento agora.