Da máquina de eleger prefeitos à irrelevância: em Itapetinga, a pasta da Infraestrutura vive seu declínio

Onde antes pulsava a engenharia que projetava o futuro, hoje resta o manejo político de uma secretaria desidratada e sem corpo técnico especializado.

Da máquina de eleger prefeitos à irrelevância: em Itapetinga, a pasta da Infraestrutura vive seu declínio
Vereador licenciado e ex-presidente da Câmara de Itapetinga Luciano Almeida (MDB), na entrega de decreto de devolução de R$ 500 mil da câmara após deixar presidência para assumir pasta da infraestrutura na Prefeitura.   

Se as paredes da Secretaria Municipal de Infraestrutura de Itapetinga pudessem falar, elas não contariam apenas histórias de cimento e areia, mas de poder. Durante seis décadas, a pasta foi o verdadeiro "coração" da administração pública, o motor que transformava a cidade e, por consequência, o principal cabo eleitoral de gestões vitoriosas. Hoje, entretanto, o cenário é de um melancólico ocaso. Sob a gestão de Eduardo Hagge (MDB), a secretaria que já foi ocupada por engenheiros visionários agora vive o paradoxo de ser chefiada por um profissional de Zootecnia.

O Passado de Glória: O "Segundo Prefeito"
Houve um tempo em que ser Secretário de Infraestrutura em Itapetinga era equivalente a ser o "segundo prefeito". Nos anos 70, a pasta foi o braço direito do então prefeito José Vaz Espinheira. Engenheiro civil e entusiasta do modelo urbanístico norte-americano, Espinheira revolucionou a cidade. Foi sob sua batuta que nasceu o SAAE, projetado para 50 mil habitantes em uma época em que a Câmara de Vereadores, míope para o futuro, dizia que a cidade jamais alcançaria tal número. A Infraestrutura provou o contrário: executou museus, praças modernas como a Dairy Valley e escolas que eram referências modernas para época.

Essa tradição de eficiência atravessou décadas. No início dos anos 80, prefeito Michel Hagge consolidou sua liderança com obras de impacto, como a Central de Abastecimento e o Parque da Lagoa, sustentado pela competência técnica de nomes como o engenheiro Luiz Nunes. Mais tarde, com prefeito José Otávio Curvelo, a secretaria tornou-se uma usina de projetos de pavimentação e moradia, e infraestrutura jamais vista, sob a genialidade do engenheiro civil Geremias Brito, que garantiu a reeleição de Curvelo, com uma pasta que era o motor de votos por conta de obras. Até mesmo na gestão petista de José Carlos Moura, o critério técnico prevaleceu com a nomeação novamente do engenheiro Brito em sua gestão de 8 anos, responsável pelo planejamento estrutural para acomodar mais 1.600 casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida, fazendo de residenciais verdadeiros bairros.

O Início da Queda: Inexperiência e Gafes
O declínio começou a dar sinais claros na gestão de Rodrigo Hagge (sem partido). Ao trocar a experiência por um perfil recém-formado e sem vivência pública, a pasta mergulhou em um amadorismo caro sobre a chefia de Gustavo David. O episódio do projeto de iluminação LED é o maior símbolo desse período: um erro de cálculo grosseiro que saltava de R$ 4 milhões para irreais R$ 25 milhões. A incapacidade de planejar fez a cidade perder recursos federais e estaduais por pura falta de projetos viáveis.

O Golpe de Misericórdia: Zootecnia no lugar da Engenharia
Se Rodrigo Hagge feriu a pasta, seu sucessor, Eduardo Hagge, parece ter assinado o atestado de óbito técnico da secretaria. Após o pedido de demissão do engenheiro civil Billy Graham Almeida, que teria saído por ver a pasta ficar sem recursos até para a compra de sacos de cimento, o prefeito tomou uma decisão inédita e controversa.

Em vez de um engenheiro civil, Eduardo nomeou o vereador licenciado Luciano Almeida (MDB), um Zootecnista. A indicação, contudo, carrega contornos que ultrapassam a mera desqualificação técnica e entram no campo das conveniências políticas "estranhas". 

Para assumir a pasta, Luciano abdicou da chefia do Poder Legislativo, renunciando à presidência da Câmara Municipal de Itapetinga, um movimento raro na hierarquia do poder. O "gesto de desprendimento" de Luciano veio acompanhado de um presente generoso ao Executivo: ao deixar o Legislativo, ele devolveu mais de R$ 500 mil do caixa da Câmara para a prefeitura de Eduardo Hagge. Embora a devolução de sobras orçamentárias seja uma prática comum ao fim de gestões, o timing da transação e a subsequente nomeação para o primeiro escalão sugerem uma simbiose política que prioriza o fechamento de contas e alianças em detrimento da competência técnica.

O ‘Presentão’ de R$ 500 mil: a estranha renúncia de Luciano Almeida e a limpa nos cofres da Câmara de Itapetinga 

Embora respeitável em sua área de formação original (manejo e produção animal), o novo secretário está tecnicamente deslocado. Afinal, as exigências modernas do STF e dos tribunais de contas para a liberação de emendas parlamentares exigem projetos de engenharia rigorosos para garantir a transparência. A pergunta que ecoa nos corredores da Prefeitura Municipal é simples: como um especialista em bem-estar animal poderá assinar cálculos estruturais e projetos de drenagem urbana indispensáveis para o crescimento da cidade?

Orçamento "Desidratado"
Além do vácuo técnico, a infraestrutura sofre um estrangulamento financeiro. Com um orçamento nominal de R$ 27,1 milhões, a pasta tem servido, na prática, como uma "conta-corrente" para tapar buracos de outras secretarias. Com o aval de uma base aliada na Câmara mais preocupada com cargos do que com o planejamento urbano, recursos são remanejados mensalmente sob a omissão de vereadores que fecha os olhos no cumprimento do dever de fiscalizar, deixando a cidade órfã de grandes intervenções.

Itapetinga, que já foi referência de engenharia pública no interior baiano, hoje vê sua principal secretaria reduzida a uma peça de xadrez político. Sem dinheiro, sem projetos e sem técnicos no comando, a Infraestrutura deixou de ser a máquina de eleger prefeitos para se tornar o retrato de uma gestão que parece ter perdido o rumo do progresso.