Como Corpus Christi deixou de ser feriado em Itapetinga e virou ponto facultativo

De "Corpo de Deus" a simples dispensa de expediente para servidores; entenda a polêmica que começou em 1954, passou por dois prefeitos Hagge e ainda divide opiniões na cidade.

Como Corpus Christi deixou de ser feriado em Itapetinga e virou ponto facultativo
Série de decisões políticas aboliram o Corpus de Christi como feriado em Itapetinga. 

O que era motivo de celebração e descanso garantido para todos os cidadãos há sete décadas hoje não passa de uma folga restrita aos servidores públicos municipais. A história do feriado de Corpus Christi em Itapetinga é um exemplo de como decisões políticas, pressões econômicas e mudanças na legislação podem transformar uma tradição religiosa em um simples ponto facultativo que, na prática, deixa de fora a maioria dos trabalhadores do comércio e da indústria.

Nasce um feriado: "Corpo de Deus" em 1954
Tudo começou em 24 de abril de 1954. O então prefeito Juvino Oliveira sancionou a lei municipal nº 18, que instituía os feriados municipais em Itapetinga. Entre as datas escolhidas, estava o que na época se chamava de "Corpo de Deus", uma referência direta ao Corpus Christi, cujo nome em latim significa "Corpo de Cristo". Conta a história oral da cidade que a grafia foi adaptada por causa da dificuldade de pronúncia do termo original pela população naqueles tempos.

Por 31 anos, a data foi celebrada como feriado oficial. Escolas fechavam, comércio parava e os moradores tinham o direito ao descanso garantido por lei. Era um dos momentos do calendário religioso católico que unia fé e folga para todos independentemente de serem servidores públicos ou trabalhadores da iniciativa privada.

1985: a virada com prefeito Michel Hagge
O cenário mudou radicalmente em 1985. O prefeito Michel Hagge, sob forte pressão de comerciantes da cidade, decidiu enterrar o feriado. Os lojistas argumentavam que a paralisação obrigatória prejudicava as vendas e a competitividade do comércio local. Assim, uma nova lei municipal transformou Corpus Christi em ponto facultativo.

Na prática, a mudança significava o seguinte:

•    Servidores públicos continuaram com o dia de folga remunerada.
•    Trabalhadores do setor privado (comércio, indústria, serviços) passaram a depender da boa vontade dos patrões. O empregador podia, se quisesse, exigir expediente normal.

A decisão foi um baque para a comunidade católica de Itapetinga, que via na data um momento de fé e procissões. Também houve críticas de trabalhadores, que perderam um dia garantido de descanso sem precisar negociar com o patrão.

Tentativas frustradas e uma confusão legal
Nos anos seguintes, vereadores tentaram diversas vezes restaurar o feriado religioso. Mas esbarravam em uma legislação confusa: A legislação federal havia incluído o Dia de Finados como feriado municipal, o que, somado a outras datas, ultrapassava os limites permitidos para feriados religiosos.

A confusão só começou a ser esclarecida com a Lei Federal nº 9.093/1995, que estabeleceu regras claras: municípios podem ter no máximo quatro feriados religiosos por ano, incluindo obrigatoriamente a Sexta-Feira Santa. O resto precisa ter tradição local comprovada. Com esse critério mais rígido, Itapetinga passou a ter como feriados religiosos oficiais:

•    Sexta-Feira Santa
•    Dia de São José (padroeiro da cidade)
•    São João (incluído recentemente na gestão do então prefeito Rodrigo Hagge)
Corpus Christi ficou de fora.

2024: veto da nova geração Hagge
Em 2024, o vereador Eliomar Barreira, conhecido como "Tarugão" (MDB), conseguiu aprovar na Câmara Municipal um projeto para devolver o status de feriado a Corpus Christi. A alegria dos defensores da data, porém, durou pouco. O então prefeito Rodrigo Hagge vetou a proposta. Mais uma vez, a tradição religiosa esbarrava no poder de caneta do Executivo.

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Nova tentativa em 2025
Agora, o vereador Tiquinho Nogueira (PSD) resolveu encarar o desafio. Ele apresentou novo projeto para transformar o "Corpo de Cristo" como já se escreve de forma mais moderna, novamente em feriado municipal. Desta vez, a proposta tramita sob a administração de mais um membro da família: o atual prefeito Eduardo Hagge (MDB).

A pergunta que fica no ar é: será que o terceiro Hagge no comando da prefeitura vai aceitar o que os dois anteriores rejeitaram?

Ponto facultativo: entenda a diferença prática
Para o cidadão comum, a confusão é compreensível. Afinal, o que muda na prática entre feriado e ponto facultativo? A resposta é simples e impacta diretamente o bolso:

•    Feriado: ninguém é obrigado a trabalhar. Se o empregador exigir o serviço, o funcionário tem direito a pagamento em dobro ou folga compensatória. A regra vale para todos, do servidor público ao vendedor de loja.
•    Ponto facultativo: órgãos públicos podem dispensar servidores sem desconto no salário. Já no setor privado, a empresa decide se libera ou não os funcionários. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) não garante folga nesses casos. Na prática, a maioria dos comerciantes exige expediente normal.

É por isso que, em Itapetinga, Corpus Christi virou sinônimo de descanso para uns e trabalho normal para outros. Uma divisão que completa 41 anos em 2026 e ainda provoca debates entre religiosos, trabalhadores e comerciantes.