Pastores de Itapetinga perdem influência política entre fiéis evangélicos, revela pesquisa

Na hora do voto, pastor já não manda mais: pesquisa mostra que 59% dos evangélicos de Itapetinga rejeitam indicação política dos religiosos.

Pastores de Itapetinga perdem influência política entre fiéis evangélicos, revela pesquisa
Pastores evangélicos de Itapetinga perdem o poder de influenciar votos dentro das igrejas.

Se depender da maioria dos fiéis evangélicos de Itapetinga, o poder dos pastores de influenciar o voto do rebanho está com os dias contados. Uma coisa é certa: na eleição de outubro, a última palavra na cabine de votação não será a do púlpito.

Uma pesquisa encomendada por lideranças partidárias, realizada por telefone nos dias 7 e 8 de maio, ouviu evangélicos da cidade e trouxe um dado surpreendente: 59% disseram que não votariam em um candidato indicado pelo próprio pastor. Apenas 19% afirmaram que seguiriam a orientação religiosa. O restante (22%) respondeu com um “talvez”, mostrando dúvida.

Traduzindo: os pastores de Itapetinga não estão conseguindo convencer nem mesmo os fiéis mais próximos a seguirem cegamente suas escolhas políticas.

Essa queda de influência já apareceu nas urnas. Na última eleição municipal, pastores que se candidataram a vereador tiveram uma performance modesta, muitos receberam menos de 100 votos. Um deles foi eleito, mas com pouco mais de 600 votos. Ou seja: o chamado do pastor, sozinho, não garantiu vitória.

Já em 2022, na disputa acirrada entre Lula e Bolsonaro, parte dos evangélicos de Itapetinga apoiou o então presidente Jair Messias, influenciada por lideranças religiosas. Mas nem todos embarcaram no clamor ao “mito”. Mesmo sob pressão, muitos preferiram ficar distantes da política ou votaram de forma independente.

E os números provam essa independência: mesmo com mais de 40% do eleitorado de Itapetinga sendo evangélico (segundo dados do IBGE), Lula venceu na cidade no primeiro e no segundo turno. Isso mostrou que os fiéis não estavam dispostos a seguir automaticamente a conversa dos pastores bolsonaristas.

O Messias Trump e o silêncio dos pastores do Brasil: e se fosse o Lula vestido de Jesus? 

Muitos pastores usaram o púlpito para afirmar que Bolsonaro era um “homem ungido por Deus” para governar o Brasil, como se o país fosse um novo “Estado de Israel”. Essas promessas radicais e, para muitos, fantasiosas, empolgaram parte dos fiéis por um tempo, mas não resistiram à realidade. O milagre eleitoral não veio. E as mensagens dos pastores passaram a ser vistas como exageros ou até mentiras.

A pesquisa interna mostra um movimento claro: o distanciamento dos evangélicos de Itapetinga da política partidária e, principalmente, da influência direta dos pastores. Esse fenômeno fica ainda mais evidente nas eleições municipais, quando os próprios líderes religiosos tentam se eleger e fracassam.

Em Itapetinga, a perda de influência é visível. Igrejas evangélicas mais tradicionais querem cada vez mais distância da política. Já as denominações neopentecostais, que têm vários templos na cidade, ainda devem participar do jogo eleitoral, mas sem o mesmo fervor de 2022. Na época, a politização excessiva causou até brigas entre os próprios evangélicos e fez muitos fiéis trocarem de igreja.

A única exceção que pode mergulhar de cabeça na política é a Assembleia de Deus de Itapetinga.

Comandada por um pastor bem ligado ao meio político, que já tem um vereador na Câmara, a posição da igreja ainda é indefinida. Isso porque o atual prefeito, Eduardo Hagge (MDB), está ligado ao governador Jerônimo Rodrigues (PT). E essa aliança pode pesar na decisão final.

Já os templos locais ligados as mega-igrejas nacionais têm pouca força de influência. Os fiéis dessas igrejas que não tiveram receio de dizer a que templo pertencem são justamente os mais resistentes à ideia de o pastor indicar políticos. Diferente de eleições passadas, quando candidatos a deputado ligados a pastores chegavam a ficar em segundo lugar em votos na cidade, essa realidade tem mudado drasticamente.

Com a eleição se aproximando, o clima em Itapetinga parece não ter mudado. Os fiéis estão mais críticos, menos dispostos a seguir orientações automáticas de pastores e decididos a votar por conta própria.

Resumindo, em Itapetinga, a política virou assunto de cidadão, não mais de púlpito.