O Messias Trump e o silêncio dos pastores do Brasil: e se fosse o Lula vestido de Jesus?

A Bíblia segundo Donald Trump: entre a blasfêmia de grife e a hipocrisia das lideranças evangélicas brasileira, restou o calar.

Postagem do presidente dos EUA, Donald Trump assemelhando a Jesus Cristo, com intenção de fazer de sua guerra contra Irã uma 'Guerra Santa'. Não deu certo.

Ah, o mundo da política e da fé... esse lugar onde a coerência vai para o deserto e nunca mais volta. Recentemente, fomos brindados com uma pérola da inteligência (ou falta dela) artificial: Donald Trump, o magnata, resolveu que o cargo de presidente era pouco. Ele quis ser o "Luz do Mundo". Postou uma imagem onde, com mãos divinas e um olhar de quem acaba de fechar um contrato de exclusividade com o céu, aparecia curando feridos. O "médico das almas" de topete laranja.

A imagem era tão modesta quanto um cassino em Atlantic City. Mas a recepção, vejam só, não foi o coro de anjos que ele esperava. Até o público americano, aquele que acha que Jesus nasceu em Ohio, achou um pouco demais. Trump, o homem que financia guerras e coleciona polêmicas como quem coleciona gravatas, teve que apagar a postagem após ser chamado de blasfemo.

Mas o que realmente diverte (ou causa náuseas) é o "silêncio ensurdecedor" das nossas lideranças evangélicas aqui no Brasil.

Cadê os gritos de "heresia"? Cadê as notas de repúdio das frentes parlamentares? Sumiram. Parece que, quando a blasfêmia vem em inglês e usa boné "Make America Great Again" (MAGA), ela ganha um passe livre no tribunal da fé.

Postagem do presidente dos USA, Donald Trump em sua rede social.
Postagem do presidente dos USA, Donald Trump em sua rede social.

É impossível não lembrar do carnaval passado. Quando a escola Acadêmicos de Niterói resolveu homenagear o presidente Lula, contando a história sofrida de Dona Lindu e sua saga contra a fome, o mundo gospel quase desabou com as latinhas de conservas. Bastou uma encenação, uma metáfora sobre o sofrimento do povo, para que deputados e senadores da "bancada da moral" acionassem a justiça, as redes sociais e, se pudessem, o próprio Arcanjo Miguel.

Naquele fevereiro de carnaval, o argumento era a "defesa dos valores cristãos". Hoje, diante de um político que se autoproclama o novo Messias em uma montagem cafona, esses mesmos defensores parecem ter perdido a conexão Wi-Fi com o céu.

Para piorar o cenário da "coerência seletiva", temos o episódio do soldado israelense no sul do Líbano. O sujeito foi flagrado vandalizando uma imagem de Jesus. Enquanto o próprio exército de Israel, país que muitos pastores brasileiros tratam como uma extensão do Jardim do Éden, condenou o ato e afastou o militar por "gravidade extrema", por aqui, o silêncio continua.

A pergunta que fica no ar, e que as redes sociais estão esfregando na cara de muita gente, ou pastores, é simples: E se fosse o Lula?

Se o atual presidente brasileiro postasse uma foto gerada por IA, com luz saindo das mãos e túnica branca, o que aconteceria? Provavelmente teríamos pedidos de impeachment por crime de responsabilidade divina. Teríamos jejuns nacionais contra o "anticristo do Planalto".

O que vemos não é defesa da fé, é política de fã-clube. A indignação dos nossos "conservadores" tem lado, tem partido e, pelo visto, tem passaporte. Se o desrespeito vem do "aliado", vira liberdade de expressão ou "erro técnico". Se vem do "inimigo", vira guerra espiritual.

Ala das latas conservadoras no desfile da Acadêmicos do Niterói em homagem ao presidente Lula gerou protesto de parte dos evangélicos brasileiros, em especial, dos pastores.
Ala das latas conservadoras no desfile da Acadêmicos do Niterói em homagem ao presidente Lula gerou protesto de parte dos evangélicos brasileiros, em especial, dos pastores.

No fim das contas, os internautas estão cobertos de razão: a hipocrisia é o único pecado que parece não ter perdão nas redes, mas que no altar da política partidária, é servido na ceia de domingo. Entre o Trump curandeiro e o silêncio dos pastores, a única coisa que realmente morreu foi a coerência.

Amém? Ou está difícil de engolir?