A farsa do fogo: quando o desespero sindical de Itapetinga queima a própria causa

Barricadas e solidão: o protesto que expôs a falência da representação trabalhista em Itapetinga.

A farsa do fogo: quando o desespero sindical de Itapetinga queima a própria causa
Imagem: foto montagem da radicalização do Sindicato de Itapetinga, em revindicação salarial aos trabalhadores da Vulcabrás Azaleia

Foi com uma mistura de perplexidade e indignação que acompanhamos, nesta última sexta-feira (24/04), as cenas dignas de um roteiro de ficção política mal escrito, protagonizadas pelo autointitulado ‘Sindicato de Verdade’ dos trabalhadores da Vulcabras Azaleia, em Itapetinga (BA). Ação radical, irresponsável e, o pior, profundamente antidemocrática: pneus em chamas, uma importante via da cidade bloqueada e, como reféns desse circo de horrores, os próprios trabalhadores que o sindicato diz representar.

Vamos aos fatos. Sob o discurso de luta por melhorias salariais, benefícios e jornada equilibrada, reivindicações legítimas, é bom que se diga, o sindicato decidiu ignorar a vontade expressa da base. Dados obtidos dentro do núcleo sindical, indicam que 73% dos funcionários da fábrica são contra qualquer paralisação ou greve, total ou parcial. O motivo é claro e humano: o medo legítimo de perder o emprego num mercado de poucas oportunidades como, a de Itapetinga.

Diante da ausência de adesão, sim, a tal paralisação, não pegou, a reação dos líderes sindicais não foi o diálogo, nem o recuo estratégico. Foi a radicalização. Primeiro, fecharam a via com barricadas. Depois, para dar o “tom” dramático que a causa não tinha, atearam fogo a pneus. E, completando a trincheira deplorável, formaram uma barreira humana para impedir até os próprios funcionários da fábrica de entrar para trabalhar. Gesto covarde, que transforma o direito de protesto em cárcere privado da liberdade alheia.

O mais patético, porém, veio depois: nas redes sociais, o sindicato tentou vender a imagem de que havia paralisação geral. Ônibus parados? Sim, mas não por adesão dos trabalhadores. Estavam retidos por causa do bloqueio criado pelos próprios sindicalistas. Funcionários saindo da fábrica? Claro, queriam ir embora após mais um dia de trabalho, não por solidariedade ao movimento.

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Esse espetáculo de fumaça (literalmente) escancara uma realidade incômoda: o sindicato perdeu 76% dos contribuintes desde que a contribuição deixou de ser obrigatória. Agora, vivendo das migalhas da contribuição voluntária, tenta, pelo desespero e pelo medo, reconquistar espaço. Só que o caminho escolhido é o do autoritarismo: impedir o ir e vir, criar obstáculos físicos e constranger os trabalhadores que só querem cumprir seu dever.

É um sinal inequívoco de fraqueza. Quem tem poder de convencimento não precisa queimar pneus para ser ouvido. Quem tem legitimidade não impede o colega de entrar na fábrica. O que vimos em Itapetinga foi uma tentativa patética de chamar atenção à força, porque o apoio orgânico já não existe.

Claro que os trabalhadores querem melhores salários e condições dignas. Claro que a Vulcabras Azaleia precisa ser cobrada. Mas radicalizar, criar barreiras de fogo e impedir pessoas de trabalhar é atirar contra a própria luta. O resultado prático: mais medo, mais antipatia e, ao fim, o fortalecimento do discurso patronal de que “sindicato só atrapalha”.

O direito à greve é constitucional e nobre. Mas o direito de ir e vir também o é. E quando um movimento sindical recorre a táticas de milícia urbana, ele não fortalece a classe trabalhadora, a enfraquece. Afasta os jovens, descredibiliza a luta coletiva e, o mais grave, abre alas para a precarização, ao dar munição para quem sempre quis desmontar o movimento sindical.

Que os sindicalistas reflitam: a causa operária não precisa de heróis de barricada. Precisa de líderes que convençam, não que coagissem. Lutar por direitos é legítimo. Mas queimar pneus e impedir o irmão de trabalhar não é luta. É esgoto político.

Uma sugestão ao sindicato: rebaixem a fumaça, apaguem o fogo e aprendam de novo a conversar. Do contrário, continuarão sozinhos na trincheira, enquanto os trabalhadores, esses sim de verdade, entrarão pelo portão da fábrica.