Enquanto empresários locais ameaçam fechar as portas e chamam trabalhadores de delinquentes, especialistas apontam que mais folgas podem, na verdade, movimentar o comércio durante a semana.
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| Empresários e comerciantes de Itapetinga, criticam o inevitável, aprovação do fim da escala de trabalho 6x1. |
A proposta do governo Lula que prevê o fim da escala 6x1, com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais e dois dias de descanso remunerado, já é apoiada por 71% da população brasileira, segundo o Datafolha. Mas, em Itapetinga, no sul da Bahia, a ideia está encontrando resistência ferrenha entre os comerciantes locais, em sua maioria alinhados à direita tradicional e ao bolsonarismo radical.
Liderados pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), empresários da cidade têm se posicionado contra o fim da escala 6x1. Alguns vão além. Um comerciante do ramo de vestuário, que integra a diretoria da CDL, declarou que fechará as portas do seu negócio se a mudança for aprovada. O motivo, segundo ele, é que não vai “sustentar vagabundos”.
A declaração em reserva, é dirigida aos próprios funcionários, aqueles que, se a lei passar, terão dois dias de descanso. Para esse empresário, descansar dois dias por semana seria “coisa de delinquente”.
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A fala escancara uma visão distorcida que, segundo relatos de trabalhadores da cidade, é compartilhada por boa parte da classe empresarial itapetinguense: a de que o funcionário só serve para trabalhar e fazer o patrão ganhar dinheiro. O descanso, nessa lógica, seria um favor, não um direito.
O que esse empresário parece ignorar é que a mudança na escala não é um devaneio esquerdista. É uma demanda concreta de milhões de brasileiros que vivem exaustos, incluindo eleitores de direita. Como bem lembrou uma análise recente: O motorista de aplicativo de direita mede a semana em quilômetros, não em dias de descanso. A faxineira de esquerda está adoecendo porque o corpo não consegue descansar.
Enquanto a CDL de Itapetinga reza para mudança não passar no Congresso, a mudança sob o argumento de que ela inviabilizará o comércio, há quem enxergue exatamente o oposto. Representantes de supermercados, por exemplo, já aplaudem a iniciativa: com dois dias de folga, os trabalhadores terão tempo livre para consumir no meio da semana, espalhando a movimentação econômica para além dos sábados e domingos.
Ou seja, o que a CDL chama de ameaça, outros chamam de “ideia genial”. Afinal, trabalhador descansado não é só mais produtivo, é também mais consumidor.
A resistência em Itapetinga, por mais de silenciosa é ensurdecedora que seja, parece nadar contra a maré. O governo de Lula (PT) já enviou o projeto ao Congresso em regime de urgência. Se aprovado, a nova regra valerá para comerciários, domésticos, aeronautas, atletas e todas as categorias regidas pela CLT.
E a pressão popular é enorme. Pesquisas mostram que 72% da população é a favor do fim da escala 6x1. No Congresso, porém, o cenário é mais dividido: 45% dos deputados são contra, a maioria deles da ala bolsonarista do PL. Mas os próprios líderes desse campo admitem, nos bastidores, que será difícil barrar a proposta se ela for votada perto das eleições de outubro quando ninguém quer ficar ao lado de quem nega descanso ao trabalhador.
O argumento de que vai quebrar empresas, soa cada vez mais como desculpa esfarrapada. Foi assim com o fim das 48 para 44 horas semanais, surgimento das férias para o trabalhador, e o 13º salário, alguém lembra? Empresários dizia, á época: que iria quebra o Brasil. Essa mesma ladainha dita com a Lei Áurea, que pôs fim a escravidão no Brasil. Sempre há alguém prevendo o apocalipse quando o trabalhador ganha um pouco mais de dignidade.
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Em Itapetinga, o empresário do vestuário que chama o funcionário de vagabundo e preguiçoso, talvez ainda não tenha percebido: o mundo mudou. E quem insistir em tratar descanso como privilégio pode ficar sozinho, com as portas fechadas, mas por falta de clientes, não por falta de exploração.
O fim da escala 6x1 deixou de ser um debate técnico. Virou símbolo de um país que cansou de estar cansado. E esse cansaço, ao que tudo indica, vai falar mais alto nas urnas, e nas leis.
É vida que segue...

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