O troféu não é de Eduardo Hagge: Itapetinga virou lulista pela onda nacional anti-bolsonarista

Enquanto o grupo do prefeito Eduardo Hagge tenta pendurar o resultado do 2º turno na parede da Prefeitura, os números contam outra história: Lula cresceu em Itapetinga porque o Brasil inteiro virou.

Presença do governador da Bahia reeleito Jerônimo Rodrigues (PT) em ato pró-lula em Itapetinga. 

Toda eleição tem seus oportunistas de plantão. E em Itapetinga, cidade do sudoeste baiano, não foi diferente. Bastou o Tribunal Superior Eleitoral confirmar a vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no 2º turno para que o grupo do prefeito Eduardo Hagge (MDB) corresse para as redes sociais e para os grupos de WhatsApp tentando colar a própria foto no pôster da vitória. "Itapetinga escolheu Lula", dizem. "Nosso grupo político entregou 21.966 votos ao presidente".

Calma. Respira. Vamos aos números, porque eles não mentem e são implacáveis com quem tenta posar de protagonista de uma história que não escreveu.

O que os dados mostram (e o que o grupo do prefeito esconde)

A comparação entre os dois turnos em Itapetinga é cristalina:

  • Votos válidos cresceram 5,4%: de 36.776 para 38.746.
  • Brancos despencaram 44% (de 727 para 404) e nulos caíram 35% (de 1.187 para 769).
  • Lula saltou de 19.382 para 21.966 votos ganho de 2.584 votos e +3,99 pontos percentuais (de 52,70% para 56,69% dos válidos).
  • Flávio Bolsonaro cresceu apenas 1.140 votos: de 15.640 para 16.780, alta de 0,78 ponto percentual (de 42,53% para 43,31%).

Traduzindo para o português claro: o eleitorado que estava disperso, protestando com branco e nulo ou simplesmente em casa, voltou no 2º turno. E voltou majoritariamente para o lado de Lula. Flávio Bolsonaro até cresceu em números absolutos, mas não converteu o eleitorado dos demais candidatos de direita que disputaram o 1º turno (Zema, Caiado, Augusto Cury e companhia somaram cerca de 1.750 votos). O teto bolsonarista em Itapetinga subiu bem menos do que o bolo de válidos cresceu e a distância entre os dois candidatos aumentou de cerca de 10,2 para 13,4 pontos percentuais.

A mística que caiu por terra

Durante anos, o antipetismo foi tratado como uma força sobrenatural, quase uma religião em Itapetinga. Dizia-se que "aqui ninguém vota no PT". Pois bem: Itapetinga não só votou como ampliou a votação petista no 2º turno, contrariando a lógica que o grupo do prefeito tenta vender.

A batalha final das ruas de Itapetinga pelos votos de Lula e Flávio e a espera do vencedor 

E por quê? Porque o que aconteceu em Itapetinga não foi um fenômeno local. Foi efeito dominó nacional. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente no Brasil, com 47,03% contra 45,16% de Lula. O medo de ver mais um Bolsonaro sentado na cadeira da Presidência da República com todo o pacote de escândalos, perda de benefícios sociais, rupturas institucionais e retrocessos que a família carrega fez o eleitorado moderado, o indeciso e até parte da direita tradicional se mover no segundo turno. O anti-bolsonarismo virou onda. E a onda passou por cima da mística do antipetismo.

O apoio que não rendeu

Vale lembrar: Flávio Bolsonaro teve em Itapetinga o apoio declarado do ex-prefeito Rodrigo Hagge (PSDB), figura de peso no município. Se apoio político local fosse suficiente para virar votos, Flávio teria crescido muito mais. Cresceu 1.140 votos, menos do que os cerca de 1.750 votos que os demais candidatos de direita tiveram no 1º turno. Isso demonstra, de forma quase didática, que o eleitorado de Itapetinga votou olhando para Brasília, não para a Prefeitura Municipal.

Quem saiu vencedor, afinal?

Não foi o prefeito Eduardo Hagge. Não foi o grupo do MDB. Não foi o PSDB do ex-prefeito. Foi o medo da volta dos Bolsonaro e a consequente virada nacional em favor de Lula que fez a diferença em Itapetinga. O grupo do prefeito pode até tentar capitanear o resultado para si, mas a matemática eleitoral é uma senhora implacável: quando o candidato apoiado pela máquina local cresce menos do que o adversário e a vantagem deste aumenta de 10,2 para 13,4 pontos, o troféu não pertence a quem posa na foto. Pertence ao eleitorado que decidiu por conta própria.

A lição que fica é simples e direta: em Itapetinga, como no resto do Brasil, o eleitor aprendeu a separar o palanque local do projeto nacional. E, desta vez, o projeto nacional que venceu não foi o da família Bolsonaro. Foi o da esperança ou, se preferirem, o do medo de repetir o passado. De qualquer forma, não foi o projeto do prefeito.