A Bet de Flávio: revista revela que bolsonarista é mais sujo que pau de galinheiro

Quando a moralidade familiar dos Bolsonaro encontra o vale-tudo das bets: o enredo de paraísos fiscais, jatinhos e contas compartilhadas que transformou a política em um cassino de porta de fundo.

Flávio Bolsonaro e, à direita, Willer Tomaz, em uma foto encontrada pela PF no iCloud do advogado - Crédito: Revista Piaui

É de uma ironia refinada ver a cruzada moral da direita brasileira esbarrar justamente no setor mais lucrativo e opaco da economia contemporânea: o maravilhoso mundo das bets. Segundo uma reportagem investigativa da revista Piauí, o senador Flávio Bolsonaro parece ter levado a sério demais o lema "apostar para vencer", transformando amizades inabaláveis em um verdadeiro balé financeiro internacional.

Afinal, por que confiar apenas no velho e manjado terno de linho quando se pode abrir uma holding na Ilha da Madeira, transitar em jatinhos particulares e dividir o controle de contas bancárias com um fiel escudeiro?

A trama narrada pela piauí tem todos os ingredientes de uma boa novela policial misturada com comédia burocrática. Tudo começou no início de 2023, quando o vácuo regulatório pós-governo Bolsonaro abriu as porteiras para a farra das loterias estaduais. Enquanto o Brasil tentava entender o que estava acontecendo, o fiel amigo Willer Tomaz cruzou o Atlântico para fundar a Cathedral Holdings em um aconchegante paraíso fiscal português.

De lá para cá, a engenharia foi impecável: nasceu a Best Bet, a licença veio com aquela ajudinha providencial da Loterj presidida por um indicado da turma de Flávio, e o dinheiro começou a circular. E não estamos falando de trocados para o cafezinho. Relatórios da Polícia Federal apontam que as contas ligadas a Tomaz funcionavam como um verdadeiro centro de distribuição de recursos, levantando a suspeita incômoda de que o bom amigo era, na verdade, um clássico "laranja" de luxo.

O grande ápice da investigação revela o que acontece quando a amizade passa dos limites da troca de favores e entra no extrato bancário. Flávio Bolsonaro (PL) figurava como "usuário máster" na conta da Alcazar (empresa irmã da dona da bet) no banco Santander. Em bom português: o senador tinha plenos poderes para consultar saldos, mover dinheiro e gerenciar chaves digitais ao lado de Tomaz.

Curiosamente, o acesso vip do senador foi encerrado em maio de 2025, exatos dois dias antes de uma viagem familiar para a Europa a bordo de um jato particular pago pela engrenagem empresarial. 

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Coincidências da geopolítica dos bilionários? Talvez. Mas a manobra aconteceu logo após o governo federal fechar o cerco contra a farra das bets estaduais operando nacionalmente, enfraquecendo o apetite comercial do negócio.

Enquanto o escritório de advocacia do senador faturava milhões e as investigações da Polícia Federal destrincham o uso de jatinhos e repasses suspeitos, a turma do setor de apostas já faz as suas próprias previsões para o futuro. Não é segredo para ninguém nos bastidores de Brasília que donos de gigantes das bets apostam suas fichas na eleição de Flávio para reverter proibições e reabrir a porteira do mercado.

No fim das contas, a reportagem da piauí expõe o que acontece quando o discurso de "família, pátria e liberdade" colide com a realidade de paraísos fiscais, contas conjuntas e negócios opacos. Resta saber se o eleitor brasileiro aceitará pagar a conta dessa rodada ou se, desta vez, a casa vai finalmente cair.

O senhor senador foi procurado pela imprensa, mas optou pela discrição estratégica: limitou-se a negar o óbvio e a classificar a relação como mera amizade. Porque, afinal, que mal há em dividir um jatinho e uma conta bancária com os amigos do peito?