Aprovada no Senado sob pressão popular e cálculo eleitoral, a PEC que garante dois dias de descanso vira a grande arma de Lula e coloca o eleitor diante do espelho: consolidar a conquista ou correr o risco de ver Flávio Bolsonaro exumar a exaustiva jornada semanal.
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| Presidente Luis Inácio Lula da Silva com trabalhadores civis. |
A política brasileira tem dessas peças magnânimas em que a ironia se veste de terno, gravata e, no caso da semana, de painel eletrônico do Senado Federal. Ontem (14/10), o Congresso Nacional protagonizou um daqueles momentos em que a realidade supera qualquer roteiro de ficção.
Sob o calor de ruas incendiadas por manifestações gigantescas pró Lula e com o termômetro das pesquisas apontando um segundo turno eletrizante e colado com a última fotografia da Quaest mostrando um empate técnico, mas com Flávio Bolsonaro dois pontos à frente, o Senado aprovou por impressionantes 75 votos a favor a PEC que enterra de vez a famigerada escala de trabalho 6x1. Foi uma vitória política monumental para o presidente Lula. Mais do que isso: foi um verdadeiro nó de chumbo colocado no pescoço da oposição bolsonarista.
Até a véspera, o empresariado tradicional aquele que financia o bolsonarismo, sussurra nos gabinetes e apoia em quase sua totalidade a empreitada eleitoral de Flávio Bolsonaro fazia contas desesperadas contra a mudança constitucional que garante duas folgas semanais ao trabalhador sem redução de salário. Mas a pressão das ruas, impulsionada pelos atos pró-Lula que redefiniram o ritmo da campanha neste segundo turno, operou um milagre parlamentar de última hora.
Campanha de Flávio Bolsonaro teme virada de Lula com as manifestações
No plenário, até quem detestava a ideia teve que morder o cotovelo e votar sim. Numa demonstração clássica de sobrevivência política sob o risco de ser "fritado" vivo pela opinião pública na reta final da eleição, o próprio Flávio Bolsonaro, que cumpria agenda, registrou seu voto favorável à matéria. Os demais caminharam sob o tacão da inevitabilidade: votar contra o trabalhador a poucos dias das urnas equivalia a um suicídio político em praça pública.
E é aí que reside a grande cartada de xadrez do Planalto. Lula sai da votação de ontem transformado no grande fiador da conquista que dá ao brasileiro o direito sagrado ao descanso de dois dias por semana. O presidente vai explorar essa vitória até a última gota de tinta dos comícios e inserções de TV e debates. Contudo, o enredo agora está nas mãos de quem realmente constrói o país: o eleitor.
A dinâmica da eleição mudou de figura e escancara um dilema cristalizador. De um lado, tem-se a garantia constitucional recém-aprovada do descanso semanal duplo. Do outro, o eleitorado sabe perfeitamente qual é o projeto real dos barões do PIB e dos aliados de primeira hora de Flávio Bolsonaro. Nos bastidores e nas promessas sussurradas a empresários, o compromisso é claro: frear, revisar e, se possível, desenterrar a folga dupla para resgatar a velha e esfolante rotina de seis dias de labuta para apenas um de respiro.
Com a maioria que o bolsonarismo construiu e mantém no Senado Federal, o caminho para uma investida futura contra direitos trabalhistas estaria pavimentado em caso de vitória da Direita-Bolsonarista. Portanto, o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro deixou de ser apenas uma disputa tradicional de projetos de poder para se transformar num plebiscito existencial sobre a segunda-feira do brasileiro. O cidadão comum vai às urnas decidir o próprio futuro: se consolida os dois dias de descanso conquistados a pulso político ou se entrega a chave da fábrica a quem, nos bastidores do andar de cima, já avisou que quer ressuscitar a velha escala 6x1. A escolha, agora, é do freguês.
É vida que segue...

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