Dados mostram filiações envelhecidas e minguantes, enquanto o poder real na cidade se concentra em grupos pessoais e familiares, não em siglas.

Com quase 50 mil eleitores em Itapetinga, só 10% filiam-se partidários, com ampla maioria de ingresso realizado há mais de 10 anos.
Os partidos políticos em Itapetinga estão com os cabelos brancos, ofegantes e, pior, solitários. Os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pintam um retrato não de uma arena política vibrante, mas de um asilo de siglas desgastadas. Enquanto o Brasil vive um climão da polarização, dividido entre lulistas e bolsonaristas, aqui na nossa cidade o roteiro político é outro: um drama familiar e pessoal onde as legendas partidárias são meros figurantes, quase descartáveis.
Olhe para os números e veja o envelhecimento: 71,7% dos filiados têm mais de 45 anos. Aposentadoria chegando para as bases partidárias. Os jovens? Desinteressados. Apenas 2% dos filiados têm entre 18 e 24 anos. A polarização nacional, que supostamente mobiliza, não está convertendo essa energia em filiações. Os mais novos não querem o ingresso no PL ou no PT de Itapetinga; talvez nem saibam o que esses nomes significam na prática local.
48 mil eleitores e 5,4 mil filiados: o retrato de Itapetinga que envelhece para as eleições de 2026
O que esses dados gritam é que o eleitor de Itapetinga não vota em partido, vota em pessoa. A sigla é um detalhe burocrático, uma roupa que se veste e troca conforme a estação. A força política se mede por grupos, sobrenomes e barganhas, não por ideologias de nacional.
A prova está no cenário atual:
O MDB é o campeão de filiações, com 1.708 filiados (31%). Mas sua força real não está nesse número, e sim em ter elegido o terceiro Hagge para a prefeitura. É a força de um clã, não de um partido. O MDB itapetinguense é a família Hagge e sua rede.
O União Brasil (antigo DEM) é o segundo colocado, com 517 filiados. Mas está parado no tempo, uma legenda sob “sentença de morte” política desde que perdeu a força do ex-prefeito José Otavio Curvelo. Sem o líder pessoal, a sigla definha, mesmo com filiados no papel.
O PSD tem apenas 294 filiados (5,35%), mas abriga dois polos de poder pessoal: o do deputado federal Antônio Brito, que constrói seu grupo eleição após eleição, e o da ex-primeira-dama Cida Moura. O grupo dela, hoje, está em frangalhos após migrações para o grupo do prefeito, demonstrando que a lealdade é ao cargo e à proteção, não à sigla.
E é aí que entra o drama político local. O prefeito Eduardo Hagge, de primeira viagem, não governa para o partido, mas para consolidar seu grupo próprio. Oferece cargos, costura alianças e absorve adversários, sem pensar nas consequências futuras, como fez com parte da base de Cida Moura. Do outro lado, seu sobrinho, o ex-prefeito Rodrigo Hagge, mantém-se como líder dos ‘gabirabas’, grupo herdado do patriarca Michel Hagge, numa tensão familiar que vale mais que qualquer diretório partidário.
Mais revelador que a idade é o tempo de filiação: 67,21% dos filiados estão há mais de 10 anos na mesma legenda. São pessoas que se filiaram em outra era política. Apenas 12,22% se filiaram há menos de um ano. O sangue novo não está entrando.
Os partidos não se renovam.
Conclusão: Itapetinga está numa encruzilhada silenciosa. A rejeição aos partidos é pragmática: eles pouco importam no jogo real de poder. O eleitor, de forma instintiva, já entendeu isso. A fidelidade é ao político que entrega, ao grupo que protege, ao sobrenome que promete. As siglas são fantasias jurídicas.
Os dados do TSE são a certidão de óbito da política partidária tradicional na cidade. O futuro, aqui, não será disputado entre PT e PL, mas entre os grupos de Hagge (seja Eduardo, seja Rodrigo), Brito, Cida e as novas lideranças que surgirem desta fragmentação. O partido morreu. Viva o político. E viva o drama pessoal que decide os rumos da cidade, longe dos holofotes nacionais. Itapetinga escreve sua própria novela, e os personagens, não os partidos, são os donos do roteiro.
Social Plugin