Temor das urnas e o fantasma do STF: Tiquinho leva a presidência da Câmara de Itapetinga, mas vitória o assombra

Manobra política para antecipar eleição interna expõe fragilidade do prefeito Eduardo Hagge e coloca nova Mesa Diretora na mira da inconstitucionalidade do Supremo.

Temor das urnas e o fantasma do STF: Tiquinho leva a presidência da Câmara de Itapetinga, mas vitória o assombra
Câmara de Itapetinga antecipa eleição e escolhe nova Mesa Diretora para o biênio 2027/2028.

Nos bastidores políticos de Itapetinga, o clima é de um verdadeiro thriller de suspense. Na manhã do dia 25 de junho, a Câmara Municipal elegeu sua nova Mesa Diretora para o próximo biênio 2027/2028, com posse para 01 de janeiro, consagrando Tiquinho Nogueira (PSD) como presidente, ao lado de Daniel Lacerda (Podemos) como vice, Neto Ferraz (PDT) como 1º secretário e Sibele Nery (PT) como 2º secretário.

No papel, o resultado foi acachapante: Tiquinho venceu por uma unanimidade de 14 votos em um parlamento composto por 15 vereadores. Uma vitória que, à primeira vista, pareceria incontestável. Na realidade, porém, esse placar elástico esconde um movimento desesperado que carrega o cheiro do medo e a sombra da ilegalidade.

Para entender o verdadeiro motivo dessa pressa em votar a Mesa Diretora, precisamos olhar para o calendário e marcar um dia com caneta vermelha: 04 de outubro de 2026. É a data das eleições gerais no Brasil, o dia em que o atual prefeito, Eduardo Hagge (MDB), pode ver seu castelo de cartas desmoronar.

O barco está afundando?
A verdade nua e crua é que a base do prefeito Eduardo Hagge em Itapetinga está balançando. O maior pesadelo do gestor atende pelo nome de Rodrigo Hagge (MDB) seu próprio sobrinho, ex-prefeito e agora candidato a deputado estadual, que se declarou opositor ferrenho ao tio. Rodrigo fez uma aliança de peso com o deputado federal Antônio Brito (PSD), que promete uma lavagem de votos nas urnas contra os candidatos apoiados pelo prefeito.

O cálculo político é simples e cruel: se o grupo do prefeito sofrer uma derrota humilhante em outubro, Eduardo Hagge perderá tanta força política que não conseguirá segurar mais ninguém.

Tiquinho vai conseguir consertar a bagunça de Eduardo Hagge na Câmara de Vereadores.

Os vereadores da base, percebendo o naufrágio, abandonariam o barco a conta gota. Sabendo que não teria força para articular essa votação se deixasse a eleição da Câmara para depois do pleito geral, o governo correu contra o tempo para carimbar esses 14 votos a favor de Tiquinho Nogueira agora, enquanto ainda há um resto de poder para barganhar.

O fantasma de Brasília: o STF
Acontece que, ao tentar fugir do "temor das urnas" de outubro, a política de Itapetinga esbarrou de frente com o "fantasma do STF". E esse fantasma tem dentes afiados.

O Supremo Tribunal Federal já consolidou uma jurisprudência implacável (como visto nas ADIs 7733, 7734 e no recente caso da Assembleia Legislativa de Pernambuco - ALEPE, relatado pelo ministro Flávio Dino). A regra da mais alta corte do país é clara como a luz do dia: eleições para Mesas Diretoras (seja em Assembleias ou Câmaras Municipais) só podem acontecer a partir de outubro do ano anterior ao início do mandato.

O que diz o STF: Antecipar demais as eleições legislativas viola os princípios republicanos da alternância de poder, da contemporaneidade e da representatividade. Normas locais que permitem votações "a qualquer tempo" são inconstitucionais.

Ao realizar o pleito antes do período permitido, a Câmara de Itapetinga criou uma perigosa fragilidade jurídica. De nada adiantou registrar o apoio quase total do plenário se o ato em si desafia a Suprema Corte.

Uma vitória com prazo?
O resumo da ópera é tenso. Tiquinho Nogueira e seus pares de Mesa Diretora ganharam os 14 votos, mas não podem comemorar. O risco de qualquer cidadão ou partido político recorrer à Justiça para anular a votação é gigantesca.

O STF já derrubou a eleição antecipada da ALEPE por unanimidade após ação do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, sob o argumento de que eleições feitas com muita antecedência deixam de refletir a real vontade política do momento.

Tiquinho levou a presidência, é verdade. Mas senta-se na cadeira com um olho no Diário Oficial e outro nas notificações da Justiça. Em Itapetinga, a pressa para escapar da derrota política de outubro pode ter pavimentado o caminho para um tapetão judicial inevitável. A chapa esquentou, os 14 votos podem virar fumaça, e o fantasma de Brasília continua à espreita.