Cargo vitalício em Salvador vira arma em Itapetinga: acordo liberta, a líder opositora Cida Moura, e une ex-rivais e coloca prefeitura em jogo em 2028.
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| Governador da Bahia indica o filho do senador Otto Alencar (PSD) ao cargo de Conselheiro vitalício do TCE, o deputado federal Otto Filho (PSD). |
Há um tipo de conchavo político tão perfeito que parece ter saído de um manual de ciência política aplicada. Dois caciques se encontram, negociam, trocam favores. Um ganha uma vaga vitalícia para seu herdeiro em um tribunal de contas. O outro garante paz para governar. Todos saem felizes. Ponto final.
Só que a política, especialmente no Brasil, nunca é um jogo de xadrez limpo e silencioso. É um dominó barulhento e caótico. E quando uma peça grande cai em Salvador, o estrondo pode derrubar um muro inteiro em Itapetinga, a 577 quilômetros dali.
A peça que caiu chama-se Otto Filho, deputado federal, filho do senador Otto Alencar (PSD). A vaga que surgiu de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA). A mão que ofereceu foi a do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Trata-se, nas palavras frias do noticiário, de uma “indicação técnica”. Nas entrelinhas quentes da política, é a moeda de troca de um acordo de cúpula: o apoio do clã Alencar em troca de estabilidade para o governo.
Otto Filho deixa a Câmara dos Deputados Federais, abre mão da reeleição e ganha um cargo estável, respeitável e bem pago. Parece um final de carreira tranquilo. Só parece.
Porque a saída dele da política partidária foi a senha para que uma outra peça, até então imóvel, começasse a correr pelo tabuleiro. Seu nome é Cida Moura.
Até então, Cida era aliada de Otto Filho. Tinha ajudado a elegê-lo em 2022 e, por lealdade ou conveniência, estaria atrelada a seu projeto de reeleição em 2026. Era uma peça secundária num jogo maior. A ida de Otto para o TCE cortou essa amarra. De repente, Cida se viu livre. E político liberto é animal perigoso, especialmente quando cheira sangue na água.
O sangue, neste caso, é de família. Literalmente.
Itapetinga é, há tempos, terreno da família Hagge. Atualmente, o prefeito é Eduardo Hagge (MDB). Seu antecessor e agora principal opositor é… Rodrigo Hagge. Sim, o sobrenome é o mesmo. E o parentesco também: Eduardo é tio de Rodrigo.
Essa não é uma disputa saudável entre familiares. É uma guerra de trincheiras, com direito a traição e expulsão sumária. Quando Eduardo assumiu o poder, contam os relatos políticos locais, promoveu uma “limpeza” nos cargos. Os aliados de seu sobrinho, ou seja, da linhagem política de Rodrigo, foram “despejados para o olho da rua”. O grupo político que apoiava o avô de Rodrigo, o ex-prefeito falecido Michel Hagge, conhecidos como “Gabiraba”, virou pária na própria prefeitura do Tiozão do clã Hagge.
Isso não é só uma divergência. É um rompimento de linhagem. É declarar que, dentro da própria família, agora há dois lados: os que mandam e os que foram expulsos. Em política interiorana, onde nome e lealdade são tudo, é uma ofensa mortal. Ofensa que gera um combustível potente: o ódio.
Cida Moura, uma política ingênua em 2024, hoje, astuta, olhou para esse ódio e não viu uma tragédia. Viu uma oportunidade.
Liberta do compromisso com Otto Filho, Cida articula agora um movimento triplo. É uma aliança que junta interesses distintos em torno de um objetivo comum: a Prefeitura de Itapetinga.
Em 2026, aliança Cida/Rodrigo será uma batalha de três grupos contra o do prefeito 'Tiozão'
O primeiro pilar é Antônio Brito (PSD), deputado Federal e aliado tradicional. Apoiá-lo em 2026 é manter uma base sólida. O segundo pilar é justamente o ex-prefeito Rodrigo Hagge, seu maior adversário na eleição passada. Inimigos ontem, aliados hoje. O que os une? O desejo de derrubar o Tiozão Eduardo Hagge, que passou a perna no sobrinho do clã Hagge.
A proposta que ronda os corredores é um clássico do ut des (“eu te dou para que você me dê”) da política:
Em 2026: Cida Moura mobiliza sua força de 17 mil votos, para eleger ou reeleger Antônio Brito, o federal, e eleger Rodrigo Hagge o deputado estadual. É a criação de uma aliança de oposição fortíssima vindas dos legislativos federal e estadual, e financiada pelo rancor do grupo “Gabiraba” e pela máquina do Brito [a Fundação].
Em 2028: Essa bancada, que viraria uma aliança tríplice, agora institucionalizada e poderosa, se volta para um único fim: eleger Cida Moura prefeita de Itapetinga em 2028. O grupo “Gabiraba” teria sua vingança ao derrubar o tio que os expulsou. Os britistas continuariam influentes na política. E Cida chegaria ao cargo máximo.
É um projeto de engenharia política que transforma ódio familiar em capital eleitoral. Que usa uma traição pessoal como narrativa de campanha. Que une forças dispersas sob a bandeira do revanchismo.
Enquanto isso, em Salvador, o governador Jerônimo e o senador Otto Alencar talvez comemorem o sucesso de sua negociação limpa. Um problema a menos, uma aliada a mais. Acontece que política não é um jogo de soma zero. É um ecossistema. Ao remover um predador de alto nível (Otto Filho) de uma região, você altera todo o equilíbrio do bioma.
A indicação para o TCE, pensada para acalmar ânimos em um palácio, acabou por soltar os demônios em uma prefeitura. Libertou uma líder opositora, armou um ex-prefeito traído e criou as condições para uma aliança baseada no desejo de desforra.
Pode ser que o plano de Cida Moura dê certo. Pode ser que a aliança rache, que os Hagge façam as pazes, que novos atores surjam. A política é fluida. Mas uma coisa é certa: o acordo que parecia apenas uma movimentação de cúpula em Salvador plantou a semente de uma tempestade perfeita em Itapetinga.
No fim, a história nos lembra que não existem ações isoladas no poder. Apenas efeitos colaterais em cadeia. E o mais irônico deles pode ser ver um cargo no Tribunal de Contas, símbolo máximo da estabilidade, virar o estopim da mais instável das guerras: a guerra dentro de casa, nesse caso, em Itapetinga.

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