Sem trégua: Na Câmara, prefeito Eduardo Hagge dispara críticas à ex-gestão do sobrinho Rodrigo Hagge

Em mensagem anual de abertura dos trabalhos legislativos, atual chefe do Executivo usou balanço de um ano e um mês de governo para fazer comparações e ataques à administração anterior, comandada por seu parente.

Sem trégua: Na Câmara, prefeito Eduardo Hagge dispara críticas à ex-gestão do sobrinho Rodrigo Hagge
Prefeito de Itapetinga Eduardo Hagge (MDB), na abertura dos trabalhos da Câmara de Vereadores.

A abertura dos trabalhos legislativos da Câmara Municipal de Itapetinga, na manhã desta terça-feira (24), foi palco de mais um capítulo da guerra política e familiar que parece não ter fim na cidade. O prefeito Eduardo Hagge (MDB) usou a tribuna para fazer um balanço detalhado de seus primeiros 13 meses de gestão, mas o tom do discurso deixou claro que o principal alvo não era apenas a prestação de contas, e sim a imagem política do antecessor e seu próprio sobrinho, o ex-prefeito Rodrigo Hagge (sem partido).

Durante cerca de 30 minutos de pronunciamento, Eduardo Hagge listou números, ações e conquistas de sua administração, mas aproveitou cada oportunidade para contrastar sua gestão com o que classificou como "herança maldita" deixada pelo sobrinho. A estratégia transformou o que deveria ser uma cerimônia institucional em um verdadeiro palanque de oposição ao governo anterior.

Comparações diretas e números na ponta da língua
O prefeito não poupou críticas ao falar da situação que encontrou ao assumir a prefeitura em janeiro de 2025. Com supostos dados em mãos, Eduardo afirmou que herdou mais de 12 mil processos judiciais ativos, cerca de R$ 17 milhões em precatórios vencidos e aproximadamente R$ 6 milhões em requisições de pequeno valor (RPVs) trabalhistas.

"O pagamento de precatórios trabalhistas em 2025 custou aos cofres públicos R$ 2,5 milhões. O pagamento de RPVs trabalhistas custou cerca de R$ 4 milhões", afirmou o prefeito, atribuindo os gastos a passivos deixados pela gestão anterior.

O tom crítico se intensificou quando Eduardo falou sobre as dívidas do município. Segundo ele, sua equipe conseguiu renegociar débitos que se arrastavam desde 2017, justamente o período do mandato de Rodrigo Hagge. "Parcelamos e estamos honrando o pagamento de todas as dívidas tributárias de gestões anteriores que, somadas, pasmem, hoje alcançam R$ 130 milhões", disse, arrancando aplausos, de até antigos aliados do ex-prefeito, no plenário do legislativo.

Ataques indiretos e diretos
Se nos números a crítica era implícita, em outros momentos do discurso o prefeito partiu para ataques mais diretos à forma de governar do sobrinho. Ao anunciar a criação de um conselho consultivo de gestão, Eduardo justificou a medida como uma forma de "inovar e incomodar aos blogs de plantão que gostam de governos autocratas e autoritários".

A frase seguinte foi ainda mais contundente: "Chega de gestor municipal atuar como verdadeiros tiranetes de autoridade". A declaração foi interpretada por vereadores e público presente como uma referência direta ao estilo de governar atribuído a Rodrigo Hagge.

Em outro momento, ao comentar sobre um plano de cargos e salários da Guarda Municipal que está travado na Justiça, o prefeito alfinetou: "A Justiça já descartou, já deu perda, porque sequer foi acompanhado de um plano de impacto econômico. Erro primário que os gestores de plantão querem me ensinar. Muito obrigado".

"Isso é gestão, o resto é retórica"
O auge do discurso de contraste veio quando Eduardo Hagge sintetizou sua filosofia de governo: "Isso é gestão. O resto é retórica e blá, blá, blá". A frase, carregada de ironia, deixou claro o recado: enquanto sua administração seria pautada por técnica, planejamento e resultados, a do antecessor teria sido marcada por palavras vazias e desorganização.

O prefeito também destacou que sua gestão reduziu o número de ordenadores de despesas de 13 para quatro, qualificou servidores da área de licitação e retomou a Secretaria de Planejamento para o que chamou de "sua verdadeira essência", um órgão de prospecção de recursos. Cada ação apresentada servia como contraponto a uma suposta falha do passado.

Guerra política e familiar
O embate entre tio e sobrinho não é novidade em Itapetinga. Parentes e aliados políticos, Eduardo e Rodrigo Hagge romperam publicamente desde que o tio sentou na cadeira de prefeito, e passaram a disputar não apenas espaços de poder, mas também a narrativa sobre quem realmente trabalhou pelo desenvolvimento da cidade.

Apesar do sobrenome em comum, os dois hoje representam projetos políticos opostos. Rodrigo Hagge, que governou o município até dezembro de 2024, tenta se manter como liderança política local, enquanto Eduardo, eleito com a promessa de mudança, busca consolidar sua imagem de gestor eficiente, ainda que para isso precise desconstruir a imagem do sobrinho.

O balanço da atual gestão
Além das críticas ao antecessor, o prefeito aproveitou para elencar uma série de realizações de sua equipe em diversas áreas. Entre os destaques apresentados estão a liberação de R$ 32 milhões para obras de macrodrenagem, a economia de R$ 20 milhões obtida através do conselho consultivo de gestão, a implantação de projetos ambientais e de castração de animais, e o fortalecimento de programas sociais.

Na área de infraestrutura, Eduardo citou a construção de pontes de concreto na zona rural por meio de parcerias público-privadas e as melhorias realizadas pelo Saae, autarquia municipal de água e esgoto, que segundo ele tem a menor tarifa do Brasil e investe com recursos próprios.

No esporte, o prefeito afirmou que "Itapetinga nunca teve tão bem servida" e destacou os projetos permanentes desenvolvidos pela secretaria da área.

Próximos capítulos
Com um discurso que misturou prestação de contas, ataques diretos e indiretos e uma clara tentativa de demarcar território político, Eduardo Hagge mostrou que não pretende dar trégua ao sobrinho tão cedo. A mensagem anual, que deveria ser um momento de harmonia entre os poderes, se transformou em mais um capítulo da novela familiar que divide o clã Hagge.

Após o Carnaval, prefeito Tiozão enfrentará o 'B.O.' do HVH e a nova aliança Cida/Rodrigo

Mas a resposta de Rodrigo Hagge, pode vir nos próximos dias, com possível anúncio da aliança política com a líder opositora Cida Moura (PSD), e a provável dobradinha para eleição de outubro, com o deputado federal Antônio Brito (PSD), com ex-prefeito candidato a estadual. Aliança deve unir grupos: ‘gabirabas’, opositores e aliados de Brito, de uma força que já preocupa o Tiozão.

O certo, nessa história de drama-político familiar, é, se depender do tom usado pelo atual prefeito, a trégua ainda está muito longe de acontecer.