O QUE PENSA: Por que o prefeito Eduardo Hagge não consegue sair das cordas?

Com um ano e três meses de gestão, o prefeito de Itapetinga enfrenta isolamento político, desgaste administrativo e o risco de ter contas rejeitadas ainda no 1º ano de governo, algo inédito na região.

O QUE PENSA: Por que o prefeito Eduardo Hagge não consegue sair das cordas?
Prefeito de Itapetinga Eduardo Hagge (MDB), no plenário da Câmara de Vereadores

A imagem que se tem, desde o início de sua gestão, é a de um prefeito encurralado. Eduardo Hagge (MDB) venceu as eleições em Itapetinga, mas vive um paradoxo político: para governar, depende justamente do grupo que tentou derrotá-lo nas urnas. É com aqueles que gritavam “fora, Tiozão” que o atual chefe do Executivo municipal tenta, hoje, sobreviver politicamente.

No papel, a base aliada é ampla. Na prática, a sobrevivência de Eduardo tem se mostrado frágil. Os novos aliados, remanescentes da oposição, ocupam cargos na Prefeitura, mas agem como se o problema não fosse deles. Afinal, nas palavras que circulam nos bastidores, “não foram eles que elegeram o prefeito”. 

Sem orientação ou disciplina vinda das pastas que controlam, esse grupo não vai a combate na defesa da administração, deixando o prefeito isolado diante das críticas.

No entanto, essa solidão política tem um endereço e um motivo: o próprio prefeito, por capricho ou vaidade, escorraçou os seus. A maioria dos seus apoiadores de campanha, os chamados “Gabirabas”, foi dispensada da gestão. Trata-se de um grupo político ativo há mais de 40 anos, construído pelo seu falecido pai, o ex-prefeito Michel Hagge. Ao afastar essa tropa de choque, Eduardo não apenas rompeu com a própria história, mas perdeu a base que o ajudou a chegar à prefeitura.

Soma-se a isso o fato de que o prefeito está cercado de conselheiros mal-intencionados e cheios de rancor para com o ex-prefeito Rodrigo Hagge. Esse cerco ideológico e pessoal tem dificultado qualquer tipo de reaproximação com sua antiga base, a mesma que o carregou nos braços até o prédio da prefeitura.

As consequências dessas decisões são profundas e aparecem no dia a dia da cidade. Sem um grupo político forte para sustentar o governo e defender suas ações, qualquer problema ganha contornos de crise:

A situação na saúde vira escândalo e incompetência;
Contratos milionários são interpretados como corrupção;
Ruas pavimentadas e mal conservadas viram símbolo de abandono;
Promessas não cumpridas pelo prefeito são sentidas como traição;
A imprensa dura é vista como perseguição;
E até o apoio político do prefeito se transforma em sinônimo de fracasso.

E tudo isso acontece quando o prefeito ainda não completou nem um ano e meio de mandato. O desgaste precoce acende um alerta que vai além da política local.

Enquanto isso, o cenário para o futuro imediato só se complica. Eduardo Hagge tenta lançar seus candidatos a deputado estadual e federal, mas uma parte de seu próprio grupo que o cerca agora não se dispõe a acompanhar essas chapas. Para piorar, especula-se uma nova dança das cadeiras que pode deixá-lo ainda mais encurralado.

Circula nos bastidores uma articulação que envolve o sobrinho do prefeito, Rodrigo Hagge, para uma dobradinha ao parlamento: Rodrigo como candidato a deputado estadual com Antônio Brito (PSD) ao federal. O que torna a movimentação ainda mais explosiva é o fato de Rodrigo estar se alinhando com a principal líder da oposição, Cida Moura (PSD). Na prática, essa costura reúne três grupos políticos que podem atuar, no limite, para derrotar o próprio tio nas eleições de outubro.

A cada movimento, Eduardo Hagge vê suas cordas se apertarem. O cenário já não é apenas político: o prefeito de Itapetinga vem sendo notificado pelo Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM) por supostas irregularidades em contratações sem licitação. O que acende um sinal vermelho ainda mais grave: a possibilidade de suas contas do primeiro ano de governo serem rejeitadas, algo inédito para uma gestão municipal, já que o TCM tradicionalmente é complacente com os gestores neste período inicial.

Essa movimentação do tribunal gera uma enorme especulação na cidade: estaria o prefeito envolvido em corrupção? Independentemente da resposta jurídica, no campo da opinião pública, o estrago já está feito.

O cenário que se desenha é o de um governo que, ao tentar construir uma nova base, destruiu a própria origem. Com apenas um ano e três meses de mandato, Eduardo Hagge está nas cordas não por falta de adversários, mas por uma combinação de isolamento político, erros de gestão e alianças que, ironicamente, podem estar pavimentando o caminho para uma derrota articulada de dentro para fora.

Sem conseguir disciplinar os novos aliados e sem o respaldo dos antigos companheiros, o prefeito assiste, cada vez mais solitário, ao desgaste de sua própria administração. E no ringue da política, ficar nas cordas tão cedo no primeiro round é um sinal de que o nocaute pode estar mais próximo do que se imagina.