Ex-prefeito de Salvador aposta em romper com os Bolsonaro para sobreviver na Bahia, mas racha direita e desafia pesquisas que ignoram o interior do estado antiga força de ACM, o avô.
![]() |
| Charge que simula o afastamento de ACM Neto do bolsonarismo por conta da consolidação de Lula na Bahia. |
A política baiana pegou fogo nos últimos dias. Nos bastidores, um movimento silencioso, mas poderoso, já era comentado com cautela. Agora veio a público: ACM Neto (União Brasil), derrotado no segundo turno de 2022 para Jerônimo Rodrigues (PT), decidiu dar um passo que muita gente achava arriscado demais. Ele se livrou do apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL) e declarou alinhamento com Ronaldo Caiado (PSD), governador de Goiás, para a corrida presidencial de 2026.
A decisão, claro, irritou profundamente os bolsonaristas da Bahia. Deputados estaduais e federais do PL já ameaçam não dar palanque a Neto no estado. Mas, para o ex-prefeito de Salvador, o cálculo é simples, direto e tem um nome: Lula.
Quem acompanha a eleição na Bahia sabe que Lula não é apenas um candidato por lá. Ele é uma força da natureza eleitoral. Hoje, o presidente é grande favorito a vencer qualquer eleição no estado com uma margem avassaladora: de cada 10 eleitores baianos, mais de 7 deve votar nele. Para cada grupo de 10 pessoas, menos de 3 escapam da preferência lulista.
É esse número que assombra ACM Neto. Ele sabe que, se continuar agarrado em Flávio Bolsonaro, sobrenome que o povo baiano rejeita em massa, seu sonho de governar a Bahia pode morrer ainda no primeiro turno. Não adianta pensar em segundo turno se você não consegue chegar lá.
Xeque-mate no 6x1: Lula fura o bloqueio bolsonarista e joga a batata quente no colo do Congresso
Na última disputa pelo governo da Bahia, ACM Neto fez história. Ele conseguiu quebrar uma invencibilidade petista que durava anos, forçando o segundo turno contra Jerônimo Rodrigues. Foi uma façanha. Mas, na reta final, veio a onda lulista. Os eleitores baianos confiaram no presidente, e Neto perdeu. Não passou vexame, longe disso. Mas perdeu. E aprendeu: mesmo não declarando apoio a Jair Bolsonaro ao lado, o teto é baixo na Bahia.
Agora, Neto aposta em Caiado como uma espécie de vacina contra o rejeitado sobrenome os Bolsonaro. O ex-governador de Goiás, que é de direita e não é tão radical, representa um nome sem tanto atrito a petistas, mas sem o estigma que os bolsonaros carregam no Nordeste. A ideia é simples: ser competitivo sem desagradar completamente os lulistas, ou pelo menos sem provocar repulsa entre os eleitores moderados.
A jogada, porém, rachou o PL baiano. Deputados como Capitão Alden e Diego Castro querem Flávio Bolsonaro de qualquer jeito. Dizem que a direita não pode repetir os erros de 2022. Raíssa Soares, pré-candidata a deputada, avisa: "ACM Neto precisa compreender que não se constrói um projeto forte ignorando um eleitorado de direita numeroso".
Há ainda um capítulo importante nessa história que os números das pesquisas convencionais insistem em ignorar. A realidade da Bahia não está nos grandes centros urbanos, onde os institutos costumam fazer suas sondagens. O voto que decide eleição na Bahia está no interior, no sertão, no recôncavo, nas pequenas cidades. E é lá que a memória do voto útil e da rejeição aos Bolsonaro é ainda mais forte.
Neto sabe disso, já que seu avô sempre o avisou que “quem quer conquistar a Bahia tem que conquistar o interior”. Por isso, sua aposta em Caiado não é apenas preferência pessoal. É sobrevivência. Se continuasse com Flávio, seu primeiro turno estaria comprometido antes mesmo de começar. Agora, ao se livrar do bolsonarismo, ele irrita a militância raiz, mas respira aliviado: sem o estigma, pode voltar a sonhar com o segundo turno.
Internamente, no União Brasil, ainda não há definição oficial sobre 2026. Parte da legenda quer Caiado. Outra parte insiste em Flávio. E há quem queira liberar os diretórios estaduais para decidir. Mas ACM Neto já deu seu recado. Resta saber se o preço político a pagar com a direita radical será maior do que o ganho eleitoral entre os moderados e os lulistas arrependidos.
Uma coisa é certa: na Bahia, onde Lula tem mais de 7 votos a cada 10 eleitores, ninguém vence carregando o sobrenome Bolsonaro no lombo. ACM Neto aprendeu a lição. Agora, é esperar para ver se a estratégia funciona.

Social Plugin